Cajarana

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“A humanidade precisa voltar a ser semente na terra, para que se possa sentir a vida de verdade.” (Tingui, 2024)

Certa vez, sentei ao lado de minha tia. Era fim de tarde. O sol já se despedia, lançando seus últimos raios amarelados sobre o rosto dela. Estávamos sentados na frente de sua casa, na calçada de cimento batido. Ela vestia um vestido verde, com uma touca branca na cabeça e uma toalha com detalhes verdes sobre as pernas. Ao seu lado, como sempre, um pequeno tacape.

Em silêncio, olhando para o horizonte, ela disse algo que nunca esqueci:

“Só lamento ver tanto e não poder fazer tanto. Vocês ainda não estão prontos.”

Aquilo me inquietou. Perguntei o que estava acontecendo, o que havia de tão grave. Ela puxou o cachimbo, soltou a fumaça no ar e, olhando para o céu, respondeu:

“Meu filho, o mundo em que vivi não é o mesmo em que vivo hoje. E o mundo que vem… não será mais ancestral. Será um mundo sem vida.”

Suas palavras carregavam um peso difícil de explicar. Ela falava de um tempo em que as pessoas estariam vivas, mas desconectadas da própria vida. Um mundo onde os caminhos da tradição seriam atravessados por grandes males.

Mesmo lembrando das dificuldades que já enfrentaram — fome, falta de água, ausência de terra e ameaças constantes — ela afirmava que havia algo diferente agora. Antes, havia conexão. Havia força. Havia presença espiritual.

“Nunca estivemos sós”, dizia.

Mas hoje, segundo ela, algo mudou.

Não eram as tecnologias, os aviões ou os celulares que preocupavam. Era outra coisa: uma fraqueza que se espalhava entre as pessoas. Uma perda do sentido de convivência, de respeito e de pertencimento.

“As pessoas estão fracas para o bem”, ela disse.

Segundo minha tia, o ser humano tem aberto caminhos que não deveria abrir. Tem se afastado da natureza, da espiritualidade e da própria essência. E isso ameaça não só os povos indígenas, mas a continuidade da vida como um todo.

Ela falava também sobre os “Cabeças Secas” — aqueles que perderam a conexão com a terra e com sua ancestralidade. Pessoas que buscam respostas fora, mas não conseguem enxergar o que já existe dentro delas.

“Eles não têm fé em si mesmos. Negam sua própria origem.”

Para ela, todos que estão na terra vêm da mesma fonte: a natureza sagrada. Não há separação. O problema é que muitos se esqueceram disso.

Enquanto ela falava, o sol desaparecia completamente. A noite chegava devagar, trazendo uma brisa fria que balançava as folhas do velho pé de cajá — árvore que guarda a história do nosso povo naquele território.

Abaixei-me, peguei uma folha que havia caído e fiz uma pergunta que ainda ecoa dentro de mim:

“Será que não nascerá alguém capaz de nos ajudar nessa caminhada? Alguém que consiga dialogar com o mundo lá fora e lembrar as pessoas da importância do amor e do respeito pela natureza?”

Antes que ela respondesse, ouvi um som forte acima de mim — como uma árvore sendo arrancada da terra.

Senti lágrimas no rosto.

Abri os olhos.

Estava deitado debaixo do pé de cajá. A chuva caía fina.

Levantei para recolher minha rede.