Céu de Veneno
O território indígena Tingui-Botó está localizado nos municípios de Feira Grande e Campo Grande, no Agreste de Alagoas. Trata-se de um território de aproximadamente 645 hectares, onde vivem cerca de 500 indígenas. Mesmo com apenas uma pequena parte homologada, o território segue vivo, sustentado por uma relação ancestral com a terra.
Cerca de 80% da área é composta por floresta nativa, área de mata onde grande parte foi restaurada pelos próprios indígenas. Por ser uma região de transição entre Caatinga e Mata Atlântica, abriga uma diversidade significativa de fauna e flora. Mais do que um espaço físico, o território Tingui-Botó é entendido como um organismo vivo, sagrado, onde o ser humano não é dono da terra, mas parte dela.
Esse ensinamento é vivido no cotidiano. Está presente nos cantos, nas danças e nos rituais, como o toré, onde crianças, jovens e anciãos reafirmam a conexão entre cultura, natureza e espiritualidade.
Mas esse modo de vida vem sendo violentamente ameaçado.
Há anos, o povo Tingui-Botó sofre com a contaminação provocada por agrotóxicos despejados por fazendeiros e latifundiários que ocupam áreas no entorno da terra indígena. Essas substâncias, muitas vezes aplicadas em grande escala, não respeitam limites territoriais. Elas atravessam o ar, o solo e a água.
Caem do céu.
Em determinados períodos do ano, especialmente no mês de dezembro, o veneno chega como uma neblina fina, quase invisível. Mas seus efeitos são profundos.
Segundo o cacique Eliziano, liderança do povo Tingui-Botó, essa contaminação tem causado impactos graves na comunidade: adoecimento de crianças e idosos, morte de animais, destruição de plantações e comprometimento de práticas culturais ligadas à alimentação e à cura.
Os impactos não são apenas ambientais; são também culturais e espirituais.
Plantas e animais não são apenas recursos. São parte do sistema de vida, da medicina tradicional e da identidade do povo. Quando são contaminados ou desaparecem, o que está em risco é a própria continuidade do modo de vida indígena.
Com o avanço tecnológico, a situação se agravou ainda mais. O uso de drones para pulverização de veneno intensificou a contaminação. Em 2025, a comunidade sofreu um dos ataques mais graves: o veneno foi espalhado por toda a aldeia, atingindo roças e dizimando abelhas — fundamentais para o equilíbrio ambiental e para a produção de mel orgânico no território.
Além disso, por se tratar de uma área inserida em bacia hidrográfica, parte desses contaminantes escoa para afluentes do rio São Francisco, ampliando o impacto para além do território indígena.
Mesmo diante de tudo isso, o povo Tingui-Botó segue resistindo.
Mas é preciso dizer com clareza: isso não é apenas um problema ambiental. É uma violação de direitos. É uma forma de violência contínua contra um povo, sua cultura e seu território.
A ausência de respostas efetivas por parte das políticas públicas, somada ao poder econômico e à influência de grandes proprietários, torna esse cenário ainda mais grave.
Terra envenenada, água envenenada e alimento envenenado não podem ser normalizados.
É preciso denunciar. É preciso tornar visível. É preciso agir.
Na Tingui Filmes, contamos essas histórias porque entendemos que a memória, a palavra e a imagem também são formas de defesa do território.
Porque, quando o céu vira veneno, a vida inteira está em risco.